Sérgio Roxo: Rolinha e a Gramática

Sérgio Roxo da Fonseca
Procurador de Justiça Aposentado 

Os lógicos ensinam que o sujeito é o predicado, ou seja, o predicado é o significado do sujeito. Se alguém me perguntar quem é a Castorina por mim referida, respondo, com os lógicos: Castorina é minha avó. O que passa a assinalar que no mundo deve haver inúmeras mulheres com este nome, mas aquela agora por mim referida é uma e somente uma, ou seja, a minha avó. O predicado, “minha avó” identifica o sujeito “Castorina”. Não é o sujeito que indica o predicado. 

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A transformação da língua depende de uma linguagem que define as regras. Os sábios discutem se o homem já nasce ou não com uma gramática universal instalada no seu cérebro. 

Uns afirmam que o cérebro de uma criança é uma lousa toda branca. Outros respondem que todo ser tem a gramática instalada na sua alma antes do seu nascimento: o índio do Amazonas, a criança japonesa, o recém-nascido americano, o menino francês já nascem com a sua lousa já anotada.  

 O filósofo norte-americano Noam Chomsky para revelou a existência de uma gramática universal no cérebro das crianças antes do seu nascimento. Ou no seu nascimento.   

As pessoas, que conviveram com os recém-nascidos, podem testemunhar que com pouco tempo de vida, todos eles manifestam sua vontade vibrando “sujeito, verbo e objeto”. Muitas vezes, identificam sua vontade pronunciando a lógica aristotélica: sujeito é o predicado, ou, “a sopa está quente”. Será que somente as nossas crianças nascem dotadas de uma gramática universal no cérebro? 

Pelas manhãs, tento entender essas visões, visitando o jardim da minha casa, onde invariavelmente surpreendo as rolinhas namorando. Uma foge da outra, bicando-se, abaixando as asas, mas num momento uma fica “grávida”. 

Como é que a rolinha fêmea comunica ao seu namorado que há “ovos” no seu abdome? Mas comunica! Tanto que, de imediato, os dois passam o dia a levar gravetos para um galho da árvore, armando um “ninho”. Mas quem ensinou para elas que devem construir um ninho? E como e quando o ninho deve estar pronto? 

A fêmea bota seus ovos e deita sobre eles, até o nascimento dos filhotes que passam a ser alimentados pelos seus pais. Quem as educou?  Antigamente ensinavam que as crianças nasciam inteligentes. Os animais, não, pois eram apenas intuitivos. As rolinhas exigem uma nova lição. Qual o nome do professor que lhes definiu as regras do amor e da procriação?  

Olhando para os pássaros do meu jardim, vem à memória a pena brilhante de Chomsky. Sou obrigado a confirmar que os seres vêm à vida munidos de uma gramática universal, que os leva a comportar-se como seus antepassados. Nem todos. Mas quase todos. 

Lembro-me de uma passagem do grande autor argentino Jorge Luiz Borges. Anotou ele que ao passar por uma famosa esquina do sul de Buenos Aires, batia no seu peito a dor da perda de um grande amor. 

Do nada surgiu a lição então anotada: “Helena, quando sinto no meu peito a dor da perda de um grande amor, lembro-me então que só se perde aquilo que nunca se teve”.  

A gramática universal também lecionou para a rolinha, quando ressoa seu canto triste e solitário: “fogo-apagou”. Ela, sem cursar uma escola de música, sem saber o que é fusa ou semifusa, mínima ou semínima, sem passar pelas esquinas do sul de Buenos Aires, rasga os ares do meu jardim com o seu “fogo apagou”. O fogo apagou de verdade?  

Certamente, a rolinha aprendeu sozinha aquela mesma música tanto para registrar a perda de um grande amor como também para acordar meu jardim em quase toda manhã da minha existência.

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