Pelé e Merchior: geniais

Sérgio Roxo da Fonseca 

Da Academia Ribeirãopretana de Letras 

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No segundo ano do curso universitário, estava assistindo a uma aula sobre o realismo do cinema italiano, quando percebi que um dos raros alunos presentes, sentado ao meu lado, tinha um livro de James Joyce sobre a sua mesa. Surpreendi-me, não sabia, naquela época, que Joyce já havia sido traduzido para o português. Solicitei ao colega, até então desconhecido que me autorizasse a folhear o livro. Emprestou-me.  

Logo devolvi, agradecendo. O jovem colega, prontamente, perguntou-me se me interessava pela literatura de Joyce. Respondi afirmativamente, confessando que até então nunca havia lido um livro dele. Tinha tomado conhecimento de sua obra, lendo textos editados sobre ele em jornais. Os textos eram assinados por um tal de José Guilherme Merchior. 

“Que pena, eu sou o Merchior”, respondeu meu jovem colega. Disse que ele também queria saber mais sobre Joyce, mas não encontrava nada de novo no Brasil. 

Poucos momentos depois, outro amigo me esclareceu que o jovem colega, também interessado no autor de “Ulisses”, estava se preparando para ingressar na carreira diplomática. Ele e outro três colegas de classe abraçaram a carreira diplomática. Merchior foi o primeiro colocado daquela turma. 

 Naquele tempo Pelé iniciou sua genial carreira. Hoje, com 81 anos, pois nasceu em 23 de outubro de 1940, ainda recebe as palmas da vitoriosa carreira. Por experiência própria, registro que há um considerável número de gênios nascidos nesta data. Como explicar o mistério? 

Nelson Rodrigues, extraordinário criador de peças teatrais, escreveu num jornal um texto inesquecível sobre Pelé, comparando-o com Merchior! Dizia ele que o gênio e a genialidade são obras do acaso ou da própria divindade. Os gênios, segundo ele, nascem gênios, nem melhoram e nem pioram a sua sabedoria no curso de suas vidas. 

Não faz sentido crer, profetizava Nelson Rodrigues, Pelé irá melhorar ou piorar suas qualidades esportivas. Nasceu gênio e assim levará o destino a cumprir suas jogadas sem que seja ultrapassado por ninguém. 

Num outro dia, acrescentava o jornalista, estava numa roda de amigos falando sobre Freud. Imediatamente um deles chamou a atenção de todos que não deviam falar de sexo na presença de um jovem, ali presente, que os ouvia calado. 

De imediato um deles esclareceu que poderiam falar sobre “sexo” ou sobre qualquer outro assunto, porque aquele jovem entendia de tudo, sem dificuldades. Era o Merchior que se preparava para a carreira diplomática. 

Nelson Rodrigues registrou que passou a conviver com Merchior e conseguiu identificar nele a virtude da genialidade que era reconhecida em Pelé. Assim como Pelé nasceu sabendo tudo de futebol.  Merchior, quando nasceu, testemunhou Nelson Rodrigues, “já chorava em meia dúzia de idiomas diferentes”. 

Merchior tornou-se um dos mais destacados diplomatas brasileiros do século XX. Prestou serviços notáveis na França e na Inglaterra. Ao mesmo tempo publicou vários livros; ou últimos escritos em inglês. Foi ele de uma época na qual se dizia que se Vieira, Camões e Machado de Assis tivessem escrito suas obras em inglês ou em francês teriam um número inumeravelmente maior do que hoje alcançaram! 

Na Faculdade de Direito fui o orador da turma de 1963, data em que a minha convivência com José Guilherme Merchior se reduziu às páginas de seus livros. O embaixador faleceu no início de sua carreira, depois de oferecer ao público um número invejável de obras escritas na mesma linguagem que já conhecida quando nasceu. 

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