Corpo forte, fertilidade em risco: uso de anabolizantes pode comprometer a capacidade dos homens de ter filhos
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A busca pelo corpo musculoso, pelo aumento da força e por resultados rápidos nas academias pode trazer consequências que vão muito além da aparência física. O uso de esteroides anabolizantes, muitas vezes associado à promessa de ganho acelerado de massa muscular, pode comprometer a produção de espermatozoides e colocar em risco os planos de homens que desejam ter filhos.
Segundo o médico urologista Dr. Rodolfo José Favaretto Filho, de Campinas (SP), um dos principais problemas é que os efeitos dessas substâncias sobre a fertilidade nem sempre são percebidos imediatamente.
“Existe uma preocupação muito grande com o resultado estético, mas nem sempre o homem entende o que acontece dentro do organismo. O uso de anabolizantes pode interferir diretamente na produção dos hormônios responsáveis pela formação dos espermatozoides. Em alguns casos, essa produção pode diminuir drasticamente ou até ser interrompida”, explica o especialista.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 17,5% da população adulta mundial, o equivalente a uma em cada seis pessoas, enfrenta infertilidade em algum momento da vida.
Embora o levantamento considere diferentes causas de infertilidade, pesquisas específicas sobre anabolizantes revelam consequências preocupantes para a saúde reprodutiva masculina. Em um estudo com 45 homens que apresentavam histórico de uso de anabolizantes e queixas de infertilidade, aproximadamente 51,1% não tinham espermatozoides detectáveis no exame inicial, condição conhecida como azoospermia. O resultado se refere ao grupo de pacientes estudado e não representa a proporção de todos os usuários de anabolizantes.
“É uma situação que merece atenção porque o homem pode apresentar músculos desenvolvidos, força física e desempenho nos treinos, mas, ao mesmo tempo, estar com a produção de espermatozoides comprometida. A aparência saudável não significa necessariamente que a saúde reprodutiva esteja preservada”, destaca o Dr. Rodolfo.

Recuperação pode levar mais de um ano
Outro dado chama a atenção: um estudo sobre o abuso de andrógenos identificou um tempo médio de aproximadamente 14,1 meses para a recuperação dos parâmetros de produção espermática. Isso significa que interromper o uso dessas substâncias não garante o retorno imediato da fertilidade.
O problema ocorre porque a administração externa de testosterona e de outros hormônios androgênicos pode inibir os sinais enviados pelo cérebro aos testículos, reduzindo a produção hormonal necessária à formação dos espermatozoides.
A recuperação depende de fatores como tempo de utilização, doses, substâncias empregadas, idade e condições individuais de saúde. Em determinadas situações, especialmente após uso prolongado, o processo pode levar anos e nem sempre ocorre de maneira completa.
“Não existe uma garantia de que tudo voltará ao normal rapidamente após a suspensão. Por isso, o acompanhamento médico é fundamental, principalmente quando o paciente pretende ter filhos. Quanto mais cedo identificarmos as alterações, melhores serão as condições para avaliar as possibilidades de recuperação”, orienta o urologista.
Testosterona sem orientação também preocupa
O especialista chama a atenção para a utilização de testosterona sem indicação médica, inclusive em protocolos divulgados nas redes sociais com promessas de melhora estética, disposição e desempenho físico.
Embora a reposição hormonal tenha indicações clínicas específicas, o uso de testosterona externa também pode comprometer a produção de espermatozoides, exigindo cuidados especiais em homens que desejam preservar a fertilidade.
Entre os possíveis sinais associados à supressão hormonal estão a redução do volume testicular, alterações da libido, dificuldades sexuais e mudanças de humor. Entretanto, a infertilidade pode ocorrer mesmo sem sintomas aparentes.
Quando procurar ajuda?
Homens que utilizam ou já utilizaram anabolizantes e pretendem ter filhos devem procurar avaliação urológica, mesmo que não apresentem sintomas.
O espermograma é um dos principais exames para avaliar a quantidade, a movimentação e as características dos espermatozoides. Dependendo do caso, também podem ser solicitados exames hormonais e outras avaliações específicas.
“É importante entender que fertilidade masculina não depende apenas de desempenho sexual. Um homem pode ter relações sexuais normalmente e, ainda assim, apresentar uma produção muito baixa de espermatozoides. A prevenção e a informação são fundamentais para evitar que uma decisão tomada hoje comprometa o desejo de formar uma família no futuro”, conclui o Dr. Rodolfo José Favaretto Filho.
