ColunistasNotícias

O pensador palestino

Feres Sabino *
advogadoferessabino.wordpress.com

Edward W. Said, árabe cristão, nasceu em Jerusalém, em 1935, na Palestina, desaparecida 13 anos depois, na diáspora provocada em 1948 pela guerra de ocupação, ininterrupta, das milícias sionistas-israelenses. Morou no Egito, depois no Líbano. Depois, nos Estados Unidos. Palestino com cidadania norte-americana, como pensador disputa o primeiro lugar na cultura relacionada ao convívio Oriente e Ocidente. Autor de muitos livros, dentre os quais, A questão Palestina, Orientalismo e Cultura e imperialismo.

CONTEÚDOS EM PRIMEIRA MÃO: Faça parte do nosso GRUPO DO WHATSAPP para receber, em primeira mão, notícias e vagas de emprego de Orlândia (SP) e região.

Estudou nas escolas inglesas, depois sucedidas por norte-americanas, no Cairo, após a guerra. Foi para os Estados Unidos estudar em Princeton e depois Harvard. E, depois, lecionou na Universidade de Columbia.

Ele recorda que em Princeton, “em meados dos anos 50 o Times noticiou a conspiração israelense para explodir cinemas e bibliotecas que tinham conexão com os americanos, como o Metro e o Centro Usia” … “como parte de um plano para azedar as relações entre o novo governo de Nasser e os norte-americanos”.


- Publicidade -


Sua origem e sua cor da pele, diferente da brancura europeia e norte americana, motivo de segregação, ora dissimulada, ora flagrante. Era versado em música, línguas, estudara piano e literatura, escapatória de liberdade de uma educação rígida por parte do pai, seguida pela mãe que não podia, naturalmente, reprimir sua afeição e seu amor. Tantas vezes companheira dele nos teatros de exibição musical, ou em tertúlias literárias.

Sua memória e sua inteligência, na fluente narração de sua autobiografia – Fora do lugar- Memórias – revela bem o grau da exclusão perversa de ser orador de sua classe e de sua formatura, em Harvard. Afinal era um estudante que se sobressia na classe e na Universidade.

Esse seu último livro, ele o iniciou, quando “…se restabelecia da terceira sessão de quimioterapia”, em maio de 1994, pois, seu corpo e seu sangue já estavam invadidos pela leucemia, um tremendo esbarrão em quem tinha o espírito grávido de futuro.

Muito leve, mas muito determinado, no livro está claríssimo seu esforço, bem-sucedido, de preservar os valores culturais de sua terra e de seu povo, sem deixar de conviver com eles os valores coloniais das super potencias, que se sucederam na dominação do Oriente Médio.

O episódio significativo dessa duplicidade cultural é a agressão que sofria na escola americana, quando descreve que, de repente, um outro Ed despertou dentro dele, para reagir, vitoriosamente, contra o agressor. Outra que Edward relembra é das estadias em Bikfaya, cidade situada na estrada sinuosa das montanhas libanesas, na qual, enraizada, morava a família Gemayel, cujo patrono Pierre, nas Olimpíadas de 1936, se encantara com os camisas pretas alemãs, fundando o partido maronita de estrema direita, as Falanges: dois de seus filhos foram presidentes do Líbano”. Um foi assassinado, Bashir, em 1982, e seus adeptos pró-Israel, reagiram massacraram os refugiados palestinos nos campos de Sabra e Shatila.

É incrível a beleza fluente de sua narração, tão minuciosa sobre as pessoas, professoras, escolas, ambientes, certamente assegurada pela qualificada minudências delas. Incrível sua memória acionada pela força devastadora da doença incurável!

A sua narração não esconde a melancolia saudosa da Palestina, e a tristeza das sucessivas guerras do Oriente Médio.

Suas páginas sobre o pai, negociante vitorioso, que o desejava sucessor de seus negócios, são de comovente sensibilidade. Edward, filho homem único convivia com suas irmãs, mas seu espírito não se compatibilizava com o de seu pai, afinal desde cedo interessava-se pela música e pela literatura. Mesma sensibilidade orientou a expressão de seu sentimento e de seu amor, quando enfrenta a idade da mãe, doente, distante e vizinha da morte. É dele a confissão: “Agora, ao escrever isso, tenho a chance, muito tarde na vida, de recordar as experiências como um todo coerente que por estranho que pareça, não deixou nenhuma raiva, só alguma mágoa e um amor residual surpreendente forte pelos meus pais”.

Sua história pessoal mistura-se com a história dos povos árabes.

Ele morreu em 2003.

* Procurador-geral do Estado no governo de André Franco Montoro e membro da Academia Ribeirãopretana de Letras 

Comentários