Fim da escala 6x1: a regra mudou. E agora, como fica a sua empresa? - Jornal NovaCidade - Orlândia | Ribeirão Preto e região
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Fim da escala 6×1: a regra mudou. E agora, como fica a sua empresa?

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Por Lucas Mendes Voltarelli, diretor de projetos da Triunfae, consultoria especializada em reestruturação de empresas

Pela primeira vez desde a Constituição de 1988, o Congresso Nacional reduziu a jornada máxima de trabalho, e com votação quase unânime: 461 votos a 19 na Câmara e 75 a 1 no Senado. A proposta, que acaba com a escala 6×1, teve apoio de partidos de esquerda e direita e foi promulgada em 16 de outubro como Emenda Constitucional 141. Para quem empreende, a discussão sobre ser contra ou a favor ficou para trás. A pergunta agora é outra:

Como atravessar a mudança e manter sua empresa saudável?

O maior interessado nesta resposta é você, pequeno e médio empresário. Segundo o Ministério do Trabalho, 14,8 milhões de empregos com carteira assinada estavam na escala 6×1 no fim de 2025, três em cada dez vagas formais do país. E a proporção é maior justamente nas micro e pequenas empresas.

Na nossa região, não é diferente. Em Orlândia, São Joaquim da Barra, Morro Agudo, Sales Oliveira, Nuporanga, Ipuã, Batatais e Cravinhos, a economia se apoia em lojas, mercadinhos, oficinas, transportadoras e restaurantes. São os pequenos negócios que mais geram empregos: responderam por 80% das vagas criadas no país em 2025, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). E são eles os que têm menos fôlego para a mudança. Uma grande rede redistribui folgas entre dezenas de funcionários. A loja com três pessoas, não.

O calendário já está definido. A partir de meados de dezembro deste ano, passam a valer as duas folgas semanais, na escala 5×2, e a jornada máxima cai para 42 horas por semana. Em meados de dezembro de 2027, o limite passa a 40 horas, com até 8 horas por dia. Em nenhuma das etapas os salários podem ser reduzidos. A Emenda prevê que uma lei complementar poderá criar regras de transição para microempreendedores individuais (MEIs), micro e pequenas empresas, mas ainda não há data nem garantia de que ela será aprovada. Por isso, não vale a pena contar com ela no seu planejamento.

O principal impacto é no custo. A conta é simples: o salário continua o mesmo, mas as horas diminuem. Se seus funcionários trabalham 44 horas e passam a trabalhar 40, cada hora trabalhada fica até 10% mais cara. Isso não quer dizer que a empresa inteira vai custar 10% a mais, porque a folha é só uma parte das despesas. Pelas contas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão do governo federal, o efeito no custo total das empresas da indústria e do comércio fica perto de 1%. Mas cada negócio tem a sua realidade: quanto mais a folha pesa nas suas despesas, maior será o impacto. Há ainda um detalhe de calendário: a primeira etapa chega em pleno Natal, o período de maior movimento do comércio. Por isso, os próximos dias são decisivos.

Para lidar com esse novo cenário, comece listando quem trabalha hoje em 6×1 e quantas horas cada um cumpre. Depois, desenhe a nova escala a partir dos horários de maior movimento e calcule o custo de cada saída possível: hora extra, nova contratação ou reorganização da equipe. Converse com o contador, confira a convenção coletiva da sua categoria e planeje o fim de ano desde já, com temporários, horários especiais e folgas. E, se sua empresa já tem dívidas, revise o cronograma de pagamentos antes de dezembro: um custo fixo a mais, somado às parcelas, pode comprometer o caixa. A mudança também pode ser uma oportunidade. Ao rever a folha de pagamento, analise os números da empresa inteira. Para calcular o novo custo, é preciso saber quanto se vende, quanto se gasta e quanto sobra. Quando foi a última vez que você fez essa conta? Na minha experiência com empresas em crise, o problema quase sempre começa muito antes de aparecer no caixa: começa quando o dono para de olhar os próprios números!

Aproveite para revisar a margem de cada produto ou serviço, o preço de venda e o faturamento mínimo para pagar as contas. Pergunte-se se compensa abrir nos horários de pouco movimento. Por fim, monte um fluxo de caixa para os próximos 90 dias, incluindo o 13º salário e o início do ano, e renegocie com fornecedores e bancos antes do aperto, não depois. O período de adaptação passa. A gestão mais organizada fica.

Há quem já tenha feito esse caminho na região. O Grupo Savegnago, de Sertãozinho, não esperou a lei. A rede testou a escala 5×2 em novembro de 2025, em uma loja nova em Indaiatuba. Em janeiro, levou o modelo a lojas na região de Campinas e a unidades do Paulistão Atacadista, do mesmo grupo, em Sertãozinho, Franca e Barretos. Depois, anunciou a expansão para toda a rede de supermercados. O motivo foi de negócio: a empresa tinha dificuldade para contratar e perdia muitos funcionários. Segundo a direção do grupo, a procura por vagas aumentou e a produtividade melhorou depois da mudança.

Há uma ressalva. O Savegnago manteve as 44 horas semanais, distribuídas em cinco dias. A lição é que reorganizar a escala é possível e pode trazer ganhos, mas a redução das horas, que vem agora, ainda exige conta e planejamento.

Adaptar-se a novas regras faz parte da rotina de quem empreende, e desta vez não será diferente. Aproveite as próximas semanas para fazer as contas, revisar a estrutura, definir a estratégia e reorganizar a equipe. Com planejamento e disciplina, sua empresa vai atravessar esta etapa dentro da lei, mais organizada e mais lucrativa do que entrou. O primeiro passo: conheça a fundo os seus números.

Bons negócios!

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