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O reencontro com Chiavenato

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Talvez pela força da amizade, a google direcionou-me para os Anais do XXVI Simpósio de História, realizado em São Paulo, em julho de 2011, e particularmente ao texto intitulado “História e historiografia: revisitando a obra Genocídio Americano: a guerra do Paraguai, de Júlio José Chiavenato, de autoria de Silvania de Queiróz.

A militância, crítica e investigativa, nos jornais locais, se era motivo de interesse e de aumento de tiragem, depois, no período da ditadura miliar (1964/1985), tornou-se sufocante com o Ato Institucional nº 5, de dezembro de 1968. E essa realidade empurra Chiavenato para conhecer novas terras, novos países, e de motocicleta. Ele esclarece que só poderia ser assim, já que dinheiro não havia para transporte diferente. Com a moto viajou pela América do Sul, Argentina, Uruguai, Paraguai, mas o que atacou sua sensibilidade, e fê-lo procurar o motivo, foi aquele monumento desgastado, sem inscrição alguma:  a mãe carregando seu filho-soldado morto. O avô de um menino da praça, que o indicara, confirmou: “é da guerra do Paraguai”. O velho ainda cantou gerânios, que é um gênero musical que realiza a tradição oral da guerra, então inacabada. Mataram 75% da população paraguaia.

A mãe segurando o filho-soldado morto é o símbolo da selvageria, que obrigou Chiavenato a decifrar a sombra de tristeza que via nos lugares e nas pessoas. O Paraguai ainda vivia, naquela época, segundo Chiavenato, a consequências da guerra, a “guerra fora ontem” (1864/1870) da tríplice aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), que destroçara o país e seu povo. 


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O livro é lançado em março de 1979, pela editora Brasiliense, em plena ditadura, ocupando os primeiros lugares na lista dos mais vendidos, durante meses. Tem 32 edições, e uma clandestina no México. E seu conteúdo revisionista confronta “a visão oficial nacional-patriótica praticamente indiscutida no Brasil, até a publicação do livro” … “causando forte repercussão historiográfica e enorme polêmica no meio intelectual e político da época”.

Os militares ficaram totalmente contrários a essa revisão, que coloca o patrono do Exército – Duque de Caxias e o Conde D´Eu, em posição desconfortável nesse evento que a cantoria patriótica o eleva. O general Floriano Peixoto Keller foi absolutamente incisivo na sua contrariedade. E nessa posição de condenação da obra comparece Jorge Escosteguy, que apesar de  crítico diz —  “…traz uma importante contribuição para o debate sobre o passado e o destino do povo paraguaio”. E passa por “um fato que suscita um sentimento de perplexidade e impõe uma reflexão: para fugir em segurança do quartel-general de Ascurra, a 16 de agosto de 1868, Solano Lopez deixa 3.500 crianças de 9 a 15 anos, os niños combatentes, cercados por 20.000 soldados brasileiros. A guerra estava praticamente liquidada, e as crianças e mais 500 soldados adultos são massacrados”.

A imprensa não se arriscou desde o seu lançamento, e essa autocensura certamente é pela vigência da ditadura militar, que só não recolheu o livro, porque estávamos próximos da abertura democrática, e ato de apreensão de livro não seria compatível. O Ministro da Justiça era o hábil Petronio Portela (1925/1980). Mas, se o Arquivo Nacional, dirigido pelo historiador José Honório Rodrigues (1913/1987) mentia sobre a existência de documentos sobre a guerra, lá em Buenos Aires documentos brasileiros acessados tinham o carimbo de nosso Arquivo Nacional. Não foi só. Até a Academia Brasileira de Letras desaconselhou a adoção do livro nas escolas. Era o ambiente da ditadura que naturalmente gerava essa patriotada medrosa.

A imprensa não se arriscou desde seu lançamento, já que só depois da sétima edição, a Revista Veja veiculou uma resenha, e a Folha de São Paulo, depois de um ano, publica o artigo de Paulo Francis, francamente favorável, recomendando apenas que precisaria de mais provas sobre a atuação do Império Britânico, atrás do palco, (acrescenta-se) apesar de grande beneficiário. Ele diz ainda que Chiavenato precisaria de mais recursos para prosseguir em suas pesquisas. (“O livro de Chiavenato é pioneiro. Chiavenato merece uma bolsa lhe permitisse estudar os arquivos ingleses abertos hoje”).

Atualmente, a historiografia nacional sobre a guerra do Paraguai passa necessariamente pelo livro, que tanto debate suscitou e ainda suscita. O sentimento que permanece, Chiavenato é quem nos disse numa entrevista:

“O interessante disso tudo é que depois que o livro saiu, embora eu tenha ficado ‘famoso’ e me tornado uma ‘personalidade’, nunca mais consegui um emprego fixo na imprensa. Só voltei a trabalhar em 2007, em um jornal de Ribeirão Preto (A Cidade), onde moro”.

Um povo que tem medo de seu passado não adquire  consciência criadora.   

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