Esse Ulisses de Pele Negra
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Autor: Alfredo Attié – Jurista, filósofo, escritor e desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, é doutor em Filosofia pela USP, mestre em Filosofia e Teoria do Direito pela FD-USP e Master of Comparative Law pela Cumberland School of Law.
Fonte: Esse Ulisses de Pele Negra – Brasil 247
Há, no Canto 16 da Odisseia, a famosa passagem em que, com a ajuda da deusa Atena, o protagonista Ulisses (ou Odisseu, no original) revela-se a seu filho no retorno à sua cidade. Até então disfarçado por obra da deusa, Ulisses retoma suas feições naturais. Para reproduzir o que diz Homero, vou me utilizar de duas boas versões da obra em português.
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Na tradução em versos de Trajano Vieira:
“Não te ocultes mais a teu filho… Falando assim, (Atena) tocou-o com a virga de ouro. Um manto transluzente e a túnica lançou-lhe ao corpo, bem mais alto, o juvenesce. Brune a pele, ao rosto devolveu a tez louçã, no mento a barba negro-azula.”
Na versão em prosa de Frederico Lourenço:
“Agora conta ao teu filho o teu segredo e não o ocultes… Com a vara dourada lhe tocou Atena. Primeiro vestiu-lhe o peito com uma capa e uma túnica bem lavada: aumentou-lhe a estatura e restituiu-lhe a juventude. De novo ficou de pele negra, encheram-se-lhe as faces e a barba escureceu em torno de seu queixo.”
Causou muito espanto e resistência – se não repugnância mesmo – por parte de muitos imbuídos de um sentido de discriminação e racismo essa verdade simples, coerente com a origem da personagem e o contexto da narrativa: a pele negra, escura, bruna ou morena de Ulisses.
Na língua helênica, o termo empregado na poesia homérica é “melankhroies”. O radical é “melas”, que nos deu, em português, os termos “melanina” e “melancolia”, e significa negro ou escuro.
O herói mais marcante da Antiguidade, aquele cujas aventuras se reproduzem sem cessar na memória popular e nas literaturas de vários povos e de várias épocas, cuja virtude era a da habilidade múltipla e da inteligência astuciosa, considerado ancestral do imaginário fundante do chamado mundo ocidental, esse Ulisses extraordinário era construído na ficção arcaica como um homem típico do Mediterrâneo, de pele escura e cabelos crespos.
Para os preconceituosos de todos os tipos – sobretudo os norte-europeus e norte-americanos -, esse simples fato literário causou revolta. Como assim, esse herói maravilhoso, admirado por força, beleza e habilidade, é mais semelhante ao mundo do sul do que aos (pretensamente) brancos, claros e puros do norte?
Os tradutores, até hoje, desses países, salvo raras exceções, têm se desviado da questão – para ser bem honesto, enganado ou mentido para seus leitores e leitoras – e trazido uma versão inautêntica do texto.
Até mesmo o recente e celebrado – pelas inúmeras virtudes que guarda, realmente, mas por outras razões – trabalho da professora norte-americana Emily Wilson disfarça a realidade, ao dizer que a pele de Ulisses seria não negra, morena ou escura, mas simplesmente “bronzeada” (“tanned”), isto é, escurecida pela ação do sol.
No entanto, não é isso que o texto diz, pois ele não se apresenta como chegou à ilha natal, nem mesmo como o disfarçara antes a deusa, para que não fosse reconhecido ao aportar. Homero, repito, afirma que a deusa lhe restitui as feições e a beleza naturais, fazendo com que retomasse a tonalidade de pele que possuía.
Há, porém, algo ainda mais importante que gostaria de ressaltar – como leitor apaixonado e estudioso de Homero desde a infância, confesso.
Ao retomar suas feições, Ulisses se apresenta a seu filho, que custa a crer que aquele seria seu pai, que estaria de volta a sua terra e a sua família após vinte anos.
Telêmaco diz ao pai ter dúvida em reconhecê-lo e, ao confessar isso, afirma que sua figura mais parece à dos “deuses que o vasto céu detém”, como traduz corretamente Frederico Lourenço. Trajano Vieira prefere referir, no discurso direto, a dúvida do filho: “Um deus seria?”
Quer isso dizer que também a imagem desses deuses, vinda das mitologias antigas, aparecia à cultura de seu próprio tempo como possuindo as feições desse herói?
Isso basta para revelar que o autor da mais recente adaptação da Odisseia para o cinema não cometeu nenhum sacrilégio ao, pelo menos, retratar Helena de Troia e sua irmã Clitemnestra, e bem assim a própria Atena, como personagens de pele negra.
O viço, o brilho e a expressão dourada de que essas figuras humanas e divinas muitas vezes se revestem na literatura antiga, mesmo os olhos claros e cabelos loiros de uma série de descrições da época – cabelos loiros que servem também a Ulisses, no Canto 13 -, não querem dizer que tivessem feições que destoassem do imaginário e da experiência mediterrâneos de seu tempo.
Não podemos esquecer, é claro, do caráter ficcional dessas personagens quando retratadas nos textos literários que sobreviveram até nós.
É difícil, porém, justificar – muito embora seja bem compreensível o processo de construção dessas personagens – que elas tenham sido assimiladas a um modelo totalmente arbitrário que, de tão insistente e de tanto se armar com argumentos de autoridade falsos, acabou por tornar normal pensar em atores hollywoodianos como Brad Pitt, Matt Damon ou Kirk Douglas para ocupar a imagem das personagens homéricas, invadindo o domínio dessas figuras de modo mais consentâneo com seu lugar e seu espaço.
Ninguém questionou a Cleópatra de Elizabeth Taylor ou a Calipso de Charlize Theron, mas Lupita Nyong’o, Zendaya ou mesmo Adele James parecem, ao moralismo e ao falso saber de muita gente, figuras inadmissíveis.
Enfim, essas são as virtudes de recuperar a memória de nossos belos textos clássicos.
Podemos encontrar neles, retirado o véu que lhes impuseram camadas de preconceitos, na construção de uma obra palatável apenas a poucos, a verdade de uma identidade que nos reconhece e que reconhecemos, e que serve à afirmação de um mundo novo.
Um mundo que há de ser tão feliz quanto o sentido e o sentimento de voltar à casa e rever os seus, retomar um amor tão sonhado, em uma sintonia de fazer inveja aos déspotas do mundo.
