Luiz Galina e Adriana Silva discutem leitura e bibliotecas na 25ª FIL de Ribeirão Preto
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Antes de formar leitores, é preciso tornar o livro visível, próximo e acessível. Essa ideia conduziu o primeiro bate-papo deste domingo (30) na Tenda Sesc Senac, na Esplanada do Theatro Pedro II. O encontro reuniu Luiz Galina, diretor regional do Sesc São Paulo e patrono da 25ª Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, e Adriana Silva, presidente da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto e curadora da FIL.
Com mediação de Thaís Heinisch, a conversa “Literatura e bibliotecas em ação: Sesc e Fundação do Livro e Leitura em diálogo” percorreu a história da palavra escrita, os desafios brasileiros de alfabetização e letramento, a mediação nas escolas e as mudanças no papel das bibliotecas.
Galina situou o livro como parte da constituição das sociedades e da transmissão de conhecimentos entre gerações. Ao mencionar acervos destruídos ao longo da história, como os de Alexandria e das civilizações maias, ressaltou que eliminar registros também significa interromper memórias e maneiras de compreender o mundo. “A sociedade contemporânea, o que somos hoje como Homo sapiens e como civilização, é fruto dos livros, da leitura e da escrita”, afirmou.
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No Brasil, observou, esse percurso foi marcado pelo acesso tardio à educação e por desigualdades que ainda se manifestam nos índices de analfabetismo funcional. Para Galina, feiras e festivais literários contribuem para enfrentar esse cenário ao aproximar a população da palavra escrita. “Nós avançamos, mas há muito a fazer. Esse trabalho que a Fundação do Livro realiza em Ribeirão Preto, assim como as feiras e os festivais literários que acontecem em outras cidades, é importantíssimo para enfrentarmos o analfabetismo funcional”, disse.

O acesso como ponto de partida
Adriana aproximou a discussão da experiência cotidiana. Em sua análise, a leitura funciona como instrumento, enquanto a biblioteca representa o lugar de acesso e descoberta. “Ninguém reivindica aquilo que não conhece, ninguém pede aquilo que nunca viu. Por isso, deixar os livros à mostra é fundamental”, declarou.
Para exemplificar como um encontro aparentemente casual pode transformar uma trajetória, ela recuperou a história do escritor e linguista Edward Lopes. Ainda menino, ele entrou em uma biblioteca escolar para buscar uma bola e encontrou o livro A banana que comeu o macaco. Começou a ler e, desde então, não se afastou da literatura. “O livro precisa estar próximo, precisa estar presente. Eu preciso ler e entender o que aconteceu comigo depois daquela leitura para querer mais”, afirmou Adriana.
Esse desejo de continuar é um dos princípios do projeto Combinando Palavras, realizado pela Fundação em parceria com as escolas. A proposta não se limita à leitura integral de uma obra, mas procura despertar a curiosidade dos estudantes e promover o contato com escritores.
A curadora da FIL também defendeu que alfabetização e letramento caminhem juntos desde a infância. Para ela, a criança não precisa dominar completamente o código escrito antes de entrar em contato com narrativas, personagens e diferentes possibilidades de interpretação. “O letramento traz essa inserção artística, cultural e reflexiva que o livro consegue oferecer. Mas, para continuar, é preciso começar”, pontuou.

Espaços que promovem encontros
A conversa abordou ainda as transformações das bibliotecas. Em lugar de ambientes voltados somente à organização de acervos, os convidados defenderam espaços capazes de receber rodas de conversa, clubes de leitura, teatro e encontros com autores.
“Hoje, a biblioteca brinca, tem teatro, tem serviços e uma série de ações interativas. Vivemos uma revisão tecnológica e ela também precisa dialogar com esse processo”, avaliou Adriana.
Na escola, acrescentou: o acervo pode funcionar como matriz, mas as obras também devem chegar às salas de aula e relatou que a Fundação já desenvolveu projetos com estantes instaladas nos ambientes frequentados diariamente pelos alunos, o que visa reduzir a distância entre a criança e o objeto literário.
Galina apresentou iniciativas do Sesc São Paulo construídas sob a mesma perspectiva. A instituição mantém bibliotecas e salas de leitura em grande parte de suas 44 unidades no estado, além de seis veículos que circulam pela Grande São Paulo e levam obras às regiões periféricas.
Outra ação em implantação aproxima esse trabalho do Mesa Brasil Sesc. Inicialmente, caixas com títulos serão disponibilizadas em 110 instituições que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade. A iniciativa prevê também a presença de autores, rodas de conversa e atividades de estímulo ao uso dos acervos. “Não é só levar a caixa. É promover uma conversa e estimular as pessoas, porque muitas das que são atendidas por essas instituições não têm condições de chegar a uma biblioteca”, explicou Galina.

Literatura e reconhecimento do outro
A dimensão social da literatura ganhou destaque quando Galina relacionou a compreensão da palavra à consciência dos próprios direitos. “Para que uma pessoa tenha consciência de seus direitos, ela precisa saber ler e escrever. A biblioteca é fundamental para o trabalho de defesa dos direitos humanos e de combate às desigualdades”, afirmou.
Ao mencionar Ana Maria Gonçalves, uma das autoras homenageadas pela 25ª FIL, ele ressaltou a contribuição do romance Um defeito de cor para a compreensão da formação brasileira e do racismo estrutural.
Adriana, por sua vez, mostrou como a criação literária pode revelar experiências que permanecem ocultas no cotidiano escolar. Ela recordou o caso de uma professora que, após propor aos alunos a escrita de uma carta inspirada em uma crônica de Zuenir Ventura, se emocionou e percebeu que desconhecia aspectos importantes da história de uma das estudantes. “Quando se inventa um personagem, coloca nele as suas dores. Quando o professor está atento, consegue perceber”, refletiu.
Ao reunir as experiências do Sesc e da Fundação, o encontro apontou que a formação de leitores não depende apenas da disponibilidade de títulos, mas de uma rede composta por educadores, mediadores, instituições e políticas continuadas. Na abertura da Tenda Sesc Senac, a biblioteca surgiu menos como endereço e mais como possibilidade: o lugar em que alguém encontra uma história e passa a reconhecer-se dentro dela.
